O alegado "snobismo" perante a música pop

Andava muito bem nos meus scrolls diários pelas redes sociais quando me deparo com um artigo da Blitz sobre a Carolina Deslandes. Dado a atenção que este orgão de comunicação social costuma dar à artista em questão, em que cada coisa que diz é motivo de "notícia", a minha tendência seria ignorar. Mas o conteúdo que a Carolina resolveu "desabafar" mexeu demasiado comigo do que antevia, considerando a temática em questão, nomeadamente um suposto "snobismo" que existe perante a música pop, isto depois da cerimónia dos Prémios Play, onde a mesma estava nomeada para a categoria de Melhor Artista Feminina, que acabou por ser ganho pela Capicua.

Tive de parar por uns segundos. Snobismo. Perante a música pop. Certo.

Claro que se pode discutir a sempre esta questão do snobismo. Existe em todos os quadrantes, aliás, se está sempre alvo de enorme escrutínio é a arte, e a música não é excepção. Todos já fomos inclusivé, em algum ponto, um bocado snobs quanto aos nossos gostos, é algo que é inevitável. Com o tempo, uma pessoa vai compreendendo outros pontos de vista, e tentando perceber o outro lado. Podemos simplesmente ficar com os nossos gostos, falar com quem tem os mesmos gostos que nós, e até entrar em discussões produtivas e agradáveis com pessoas cujos gostos são diferentes em que existe compreensão, alguma discórdia, mas no fim todos acabam por aprender alguma coisa.

Agora, este ataque de snobismo referido pela Carolina, a meu ver, faz zero sentido e vem de uma posição que considero de privilégio. Privilégio esse em que a artista está constantemente em todo o lado, seja na televisão em programas de talentos, festivais da canção, concursos, e outros demais. Não coloco, de todo, o seu trabalho em causa. Não sou apreciador da sua música, mas acredito que ela está onde está por seu mérito. Mas sentir-se um bocado atacada pelo alegado "snobismo" perante a pop é, no mínimo, ridículo e em nada ajuda a elevar a música portuguesa. Isto quando a cena alternativa, seja portuguesa ou internacional, é consistentemente atacada por esse mesmo "snobismo".

Considero-me uma pessoa com um gosto musical amplo, tendencialmente mais para o alternativo e para o rock. Sempre, em algum momento da minha vida, vi o meu gosto questionado porque, em cada altura, era sempre algo mais fora do que é o pop. Por serem artistas que muitas pessoas ainda desconhecem, por ser um som estranho, por não tocar na rádio, pelo quer que seja. E, por ventura, também poderei ter sido alguma vez "snob" perante quem tem gostos mais pop, comportamento esse que posso ter tido inadvertidamente, e que tento sempre me corrigir, porque mais uma vez, cada um tem o seu gosto e isso deve ser respeitado. Guerras de gostos não levam a lado nenhum, e uma discussão saudável é sempre mais preferível pois há sempre muito para aprender.

Mas, novamente, ver uma artista, numa posição de relevância no panorama musical português, dizer tais coisas, e ter colegas do ramo em mostrar concordância, é alienar todo o outro espetro da música portuguesa. Espetro esse que luta, diariamente, por visibilidade. Basta ver os programas portugueses dedicado à música portuguesa, onde ou é música pimba, ou são os suspeitos do costume. Basta também olhar para as grandes rádios nacionais, onde a aposta na diversidade musical é nula, ou muito próximo disso. E, até mesmo, para os próprios Prémios Play.

A dificuldade que artistas emergentes têm atravessado, principalmente com a pandemia, é palpável. Numa altura que uma indústria deveria estar mais unida que nunca, mostrar tudo o que se faz em Portugal, quando nunca foi tão diverso como agora, é um erro crasso.

Mas parece que, aparentemente, não ganhar um prémio e acusar a indústria de snob perante a música pop é mais importante. E isso é triste.

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